2025 – Site do Luiz Paulo Sarti Tupynamba https://tupyweb.com.br Um blog que fala um pouco sobre muitas coisas. Tue, 27 Jan 2026 14:16:01 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://tupyweb.com.br/wp-content/uploads/2026/01/cropped-LOGO-DO-BLOG-2026-TUBARAO-ENGOLINDO-PLANETA-TERRA-248-X-248-32x32.png 2025 – Site do Luiz Paulo Sarti Tupynamba https://tupyweb.com.br 32 32 A Bolha https://tupyweb.com.br/2026/01/15/a-bolha/ https://tupyweb.com.br/2026/01/15/a-bolha/#respond Thu, 15 Jan 2026 14:46:10 +0000 https://tupyweb.com.br/?p=3011 Luiz Paulo Tupynambá – 27/11/2025

Uma das palavras que provoca pânico no capitalismo é “bolha”. É a descrição de um acúmulo de financiamento para um determinado setor da economia. Por natureza e necessidade, empresas captam recursos no mercado de capitais para executar projetos buscando crescimento e futura expansão do lucro ao melhorar sua posição no mercado. A bolha se forma quando há um excesso de investimento (empréstimos) captado por um segmento que, tempos depois, se percebe não conseguirá entregar o lucro esperado ou pior, nem devolverá o capital investido. Aí a bolha explode. E as pessoas perdem muito dinheiro.

Existem muitas maneiras de financiar empresas. Pode ser financiamento estatal. O Estado injeta dinheiro a custo quase zero numa ou mais empresas para gerar um benefício social, que é o “lucro” do poder público. Pode ser usado, como no modelo econômico chinês, para alavancar o crescimento de setores específicos da economia.

Para crescer, uma empresa precisa de investimento constante, evitando ser engolida pelas concorrentes. Capitalismo é renovação de processos produtivos, evolução de sistemas de controle administrativo e financeiro, identificação de novas necessidades de mercado e atendimento dessas necessidades com novos produtos. No sistema capitalista, empresa que não investe não sobrevive. E investir significa captar financiamento, seja no sistema bancário oficial ou privado, seja na agregação de novos “sócios” por meio da oferta de ações nas bolsas de valores.

Os grandes investidores em ações são os fundos de capitalização. Podem ser criados por bancos, financeiras e empresas do tipo. Também existem fundos financeiros semi-estatais de aposentados e pensionistas, existentes em quase todos os países. São as “galinhas dos ovos de ouro” do mercado financeiro. Corretor que administra um fundo desses vira mandachuva, seja na Faria Lima, seja em Wall Street. Normalmente, o corretor observa os relatórios com vários dados da empresa, como produção, vendas, balanço, etc. Quanto melhores são esses números, melhor avaliada é a empresa. E ações bem avaliadas sobem seu valor, gerando lucro para quem comprou por um preço menor, tempos atrás. Porém, empresas de um determinado segmento podem mostrar resultados e expectativas que não estão “calçadas” na realidade do mercado. Isso acontece muito quando atuam em novos mercados, com muita especulação sobre o lucro que será gerado por esse novo mercado. Aí é que mora o perigo. Administradores são humanos. Podem se entusiasmar, arriscar, jogar para vencer. Mas quem arrisca, geralmente perde.

Alguns dos melhores jogadores desse “cassino” chamado mercado de ações começam a manifestar preocupação com a economia da Inteligência Artificial. Questiona-se sobre o que realmente essas empresas vão entregar para o mercado. O primeiro a falar foi o cara que descobriu a crise dos sub-primes de 2008, Michael Burry. Uma fabricante de peças para os sistemas de IA como a NVidia é algo visível e compreensível. Fabrica e entrega um produto. Hoje é a empresa mais valiosa do mundo. Todo data center no planeta usa suas placas, aos milhares de unidades em cada um deles. Mas espere um pouco. Para uma empresa com o tamanho que tem na bolsa de valores, ela tem um número muito pequeno de clientes importantes, seis para ser exato. A NVidia vale hoje quatro trilhões e oitocentos e dez bilhões de dólares. Assim mesmo. Tri e bi.

As empresas compradoras dos produtos da Nvidia são as “big techs”, donas de data centers gigantes. Mas ninguém sabe direito o que elas estão vendendo. E será que isso vai gerar receita real? Que serviço tão valioso elas prestarão a ponto de conseguir rentabilidade para pagar o que foi investido?

A recente valorização das empresas ligadas a IA nas bolsas estadunidenses está em contradição aos princípios de crescimento de mercados setoriais. E se uma bolha desse tamanho estourar, a crise de 1929 vai parecer garoa de verão comparada a um tsunami duplo. E o Michael Burry? Ele apostou contra os sub-primes, ganhou e ficou rico, os outros quebraram. A História ensina.


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O consumo de energia pela Inteligência Artificial no futuro – 1 https://tupyweb.com.br/2026/01/15/o-consumo-de-energia-pela-inteligencia-artificial-no-futuro-1/ https://tupyweb.com.br/2026/01/15/o-consumo-de-energia-pela-inteligencia-artificial-no-futuro-1/#respond Thu, 15 Jan 2026 14:42:55 +0000 https://tupyweb.com.br/?p=3008 Luiz Paulo Tupynambá – 15 de novembro de 2025

Quando você faz uma consulta no Google, inicia um processo que demanda um certo consumo de energia. É um consumo ínfimo a ser considerado na sua conta de energia. Porém, se somarmos os oito bilhões e meio de consultas diárias feitas no Google, veremos que as consultas são bem relevantes na demanda de energia elétrica no mundo todo.

Tudo o que é processado na Internet passa pelos data centers. “Estima-se que os data centers consumam cerca de 415 terawatts-hora (TWh) por ano, representando cerca de 1,5% do consumo global de eletricidade em 2024. Previsões indicam que esse consumo pode dobrar até 2026 devido ao crescimento da inteligência artificial e da demanda por dados” (consulta ChatGPT).

Em tempos de COP 30, é bom transformar esse tipo de dados para a chamada “pegada de carbono”, a régua usada por ambientalistas e cientistas ao calcular o impacto de uma atividade sobre o meio ambiente. A pegada de carbono total da infraestrutura de internet (incluindo dispositivos, redes e data centers) foi estimada em cerca de 3,7% das emissões globais de GEE (gases de efeito estufa) em 2018, e esse valor tem aumentado. Um único e-mail sem anexo gera cerca de 4 gramas de CO₂, enquanto atividades de maior consumo de dados, como streaming de vídeo, têm impactos proporcionalmente maiores.

Imagine qual seria o consumo mundial de combustíveis se só existissem carros populares. E se todo mundo tivesse um Fórmula 1 para usar no dia-a-dia? Em vez de um Citroën C3 1.0  todos tivessem um McLaren, igualzinho ao do Lando Norris na garagem? Pensa no impacto disso no consumo mundial de combustíveis.  E na emissão dos GEE. É nessa proporção o impacto no consumo de energia elétrica com a chegada dos super data centers da Inteligência Artificial. A melhor estimativa é que, por volta de 2030, a demanda de energia pela IA multiplicará o consumo atual por dez. Mas já existem estudos que dobram essa estimativa.

A OpenAI é a maior empresa dedicada à Inteligência Artificial no mundo todo. Criadora do ChatGPT e de várias IAs dedicadas a tarefas e objetivos específicos. Ela não está no mercado de ações. É uma empresa de capital constituído por sócios, com mais ou menos quotas. Tornou-se relevante no mercado no final de 2022, quando revelou o ChatGPT. Seu CEO é Sam Altman, grande estrela em ascensão na Nova Economia.

Altman é conhecido no mercado por sua ousadia. Recentemente fechou acordos com as duas concorrentes do mercado de placas gráficas, imprescindíveis para o funcionamento das IAs. Juntou numa mesma sociedade, a NVidia, ainda a maior empresa do mundo e a concorrente AMD, que está um pouco abaixo na hierarquia dos tubarões da IA. De quebra, acrescentou na sua poção mágica a Microsoft, também sócia da OpenAI e a Oracle, gigante dos datacenters de armazenamento de dados.

Dessa mistura nasceu o Projeto Stargate, uma rede de data centers, no mundo todo, com investimentos estimados entre 300 e 500 bilhões de dólares. Para você ter uma ideia da voracidade por energia desse “megassauro” das IAs, estima-se o consumo de 7 gigawatts anuais de energia, somente com os primeiros data centers nos Estados Unidos. É metade da produção anual de Itaipu. É mais do que um terço do consumo de todo o Estado de São Paulo registrado em 2023. Para consumir toda essa energia, será necessário produzi-la. Some ao Stargate os data centers em construção pertencentes a outras big techs, que podem gerar uma demanda igual ou maior e dá para você imaginar a dimensão da encrenca ambiental que isso provocará. E a solução mais óbvia para as pessoas do ramo é a queima de combustível fóssil, como o Gás Natural Liquefeito. Mas que, no fim das contas, gera mais Gases de Efeito Estufa do que o mais poluente dos poluentes, o carvão.

Começou a entender o porquê da turma do Vale do Silício virar amiguinha da turma do fura poço de petróleo, do Trump e companhia? E a correria para ver quem chega primeiro no petróleo do Caribe, com o maior porta-aviões do mundo ameaçando o “Império do Mal(duro)”? Mas, você já sabe quem vai pagar essa conta e quem vai lucrar, né?

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O consumo de energia pela Inteligência Artificial no futuro – 2 https://tupyweb.com.br/2026/01/15/o-consumo-de-energia-pela-inteligencia-artificial-no-futuro-2/ https://tupyweb.com.br/2026/01/15/o-consumo-de-energia-pela-inteligencia-artificial-no-futuro-2/#respond Thu, 15 Jan 2026 14:39:28 +0000 https://tupyweb.com.br/?p=3005 Luiz Paulo Tupynambá – 22 de novembro de 2025

No início desta semana, o presidente dos Estados Unidos liberou um empréstimo de um bilhão de dólares para a Constellation Energy Corp. Parece uma operação de financiamento comum na indústria energética. Mas tem uma história toda por trás disso. O empréstimo foi feito para a reativação de uma unidade da usina nuclear de Three Mile Island. Como garantia, a Energy apresentou um contrato de fornecimento exclusivo de energia elétrica para um dos data centers da Microsoft naquela região. Essa unidade de fissão nuclear usa reatores de urânio para aquecer água, criar vapor e movimentar turbinas, gerando eletricidade. Foi paralisada em 1979, quando um acidente no reator número 2 causou um vazamento grave, o que obrigou a usina a ser fechada.

Curiosamente, um filme chamado “Síndrome da China”, havia sido lançado algumas semanas antes do acidente na usina, no estado da Pensilvânia. Era quase uma premonição do que aconteceu na realidade. Indicado a quatro Oscars, tem atuações memoráveis de Jack Lemmon, Jane Fonda e Michael Douglas. O nome do filme refere à possibilidade de um reator nuclear “vazar”, gerando um incêndio que perfuraria o planeta de um lado a outro e explodindo, lançando uma nuvem radioativa sobre uma grande área limítrofe. Foi considerado o acidente nuclear mais grave acontecido no hemisfério ocidental. Sua gravidade ficou logo atrás de Chernobyl (Ucrânia-URSS) em 1986 e de Fukushima-Daiichi (Japão) em 2011. Numa escala de zero a dez de perigo para a população, Chernobyl e Fukushima atingiram o nível 7 (acidente grave), com vazamento de material radioativo, mortes diretas e grande contaminação ambiental. Nos EUA, atingiu o nível 5, sem mortes ou feridos diretamente, mas com comprometimento por vazamento de gases e vapores radioativos. Desde 1979, Three Mile Island estava proibida de funcionar, mas a necessidade de gerar energia elétrica para abastecer os “buracos negros” da Inteligência Artificial começa a cobrar seu preço. Lá como cá: meses atrás a JBF, para entrar no mercado de energia elétrica, adquiriu um dos reatores da Usina de Angra dos Reis.

No mundo todo, movimentos em direção ao “renascimento” da energia nuclear vem tomando proporções mais sérias. Não que tenha acontecido uma grande melhora na segurança das usinas com reator nuclear. A manipulação humana teve problemas evidentes em Chernobyl e Three Mile Island. O que houve foi um aumento na adoção de sistemas de controle automatizados, ainda com supervisão humana qualificada.

A China, a grande poluidora mundial, vem fazendo um esforço gigantesco para substituir o carvão como fonte principal de geração de energia, por fontes renováveis. Porém o lado ocidental se mostra cada vez menos propenso a adotar medidas restritivas à queima de combustíveis fósseis. Petróleo e gás natural voltaram a ser a opção mais viável para a velocidade exigida pelo crescimento da IA. Geradores gigantes e mini termo-elétricas movidas a GNL ou diesel são realidade nos novos data centers que vem sendo instalados nos EUA. Já a energia nuclear, considerada fora do baralho depois da tragédia em Chernobyl, mostra claramente que vai voltar.

Talvez uma boa parte da logística mundial use substitutos renováveis para os combustíveis usados no transporte de cargas e pessoas. Mas isso não resolverá o problema dos gases de efeito estufa. A demanda por energia para abastecer a Economia da IA vai superar, e muito, a economia que faremos na logística.

Toda mudança de ciclo econômico exige uma nova fonte ou combinação de energias. Com vapor e petróleo criamos a revolução industrial como a conhecemos e domesticamos a energia elétrica. Mas qual será a energia ou a combinação que irá tocar a Revolução da Nova Economia? Para mim, parece clara a opção ocidental de manter a coisa como está e aumentar o uso da energia nuclear. Para gozo e delírio dos príncipes, dos donos das fortunas inesgotáveis e dos ditadores de plantão. Não importa a COP, tenha o número que for.

Na Netflix tem uma boa série documental sobre o assunto: “Meltdown – Reação Nuclear”.

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COP 30 – Será que faremos o suficiente? https://tupyweb.com.br/2026/01/15/cop-30-sera-que-faremos-o-suficiente/ https://tupyweb.com.br/2026/01/15/cop-30-sera-que-faremos-o-suficiente/#respond Thu, 15 Jan 2026 14:30:41 +0000 https://tupyweb.com.br/?p=3002 Luiz Paulo Tupynambá – 7 de novembro de 2025

Em 1972, sob o patrocínio da ONU, foi realizado em Estocolmo o primeiro encontro mundial para discutir a relação da nossa civilização com o meio ambiente e a nossa responsabilidade em manter o planeta habitável e ecologicamente equilibrado. Somente vinte anos depois, tivemos uma sequência dessa primeira reunião, então realizada no Rio de Janeiro, a Rio 92. De lá para cá, com mais ou menos boa vontade dos nossos governantes de plantão, o Brasil se tornou a principal liderança do movimento para a preservação do planeta. Muito por termos em nosso território, sob nossa guarda constitucional, a maior floresta contínua, a maior biodiversidade e a maior bacia hidrográfica do planeta. Além disso, temos uma área agricultável capaz de produzir alimentos variados, o que poderia abastecer quase toda a humanidade. É nossa vocação, mais do que obrigação, preservar este espaço, pois vivemos, sim, num país tropical, abençoado por Deus e lindo por natureza, como o definiu Jorge Benjor.

O presidente Lula propôs, em seu discurso na abertura da cúpula dos estados da COP 30, a criação de um fundo de investimento para financiar a preservação das florestas perenes e dos povos que nelas vivem. Também seriam beneficiados os investidores e fazendeiros dos países participantes, como prêmio por trabalhos de conservação e melhoria de suas propriedades. Portanto, trata-se de uma abordagem nova para o financiamento da preservação ambiental. Em vez de doações a fundo perdido, países e investidores do mundo todo poderão participar desse fundo, conseguindo lucro com seus resultados. No início, o fundo proposto por Lula atenderia às massas florestais conhecidas como “rainforests”, existentes no norte da América do Sul (Amazônia), na África Central (Bacia do Rio Congo) e a floresta da Sondalandia ou Bornéu (Ásia, Indonésia, Malásia e Brunei).

É o objetivo da COP 30, conseguir dinheiro para atingir os objetivos fixados nas COPs anteriores. Isso num mundo onde recursos estão sendo drenados para guerras inesperadas, como a da Ucrânia. Nela foram gastos bilhões de euros e dólares em armamentos. Outro tanto foi destinado para o aumento de gastos com defesa das nações europeias assustadas com a possibilidade da expansão do conflito.

Porém, mesmo tendo assumido compromissos anteriores, os países industrializados tem encontrado mil desculpas para não cumpri-los. Alguns alegam falta de dinheiro ou outros, como os Estados Unidos, por simples atitude ideológica. Isso apesar dos sinais alarmantes das mudanças climáticas. Todos os países do mundo, com mais ou menos intensidade, tem passado dissabores e eventos dramáticos por conta do aumento da temperatura global. Negar isso é negar a existência de um futuro para todos. E não estou dizendo se é um futuro ruim ou bom. Estou dizendo que não teremos futuro.

Agora vai ser definido quem vai pagar ou financiar tudo o que foi planejado. Redução das emissões globais de gases estufa, mitigação de problemas ambientais, financiamento de populações prejudicadas por eventos climáticos, acesso à água potável, destinação de dejetos prejudiciais, urbanos, industriais e agrícolas, preservação de ecossistemas, financiamento especial e incentivos para atividades econômicas eco sustentáveis das populações nativas e compensação financeira para a captura de carbono, entre muitos outros que foram levantados e que são prioridades. Também será definido como serão captados esses recursos, inclusive com a criação de fundos de investimento empresariais e iniciativas privadas.

Se chegarmos lá vai ser ótimo. Se tenho certeza disso? Redondamente, respondo que não. E por que digo isso, que é uma contradição daquilo que falei? Por falta de espaço, explicarei na próxima semana. Só adianto umas coisinhas: quando começamos a falar sobre mudança climática, vivíamos num mundo diferente. Era um mundo industrial, com economia baseada na manufatura e comercialização de bens mais ou menos duráveis. Carros andavam com gasolina ou diesel, navios navegavam com óleo, aviões voavam com gasolina de alta octanagem e jatos voavam com querosene de aviação. E o mundo mudou de lá para cá.

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E tudo acabará em cinzas https://tupyweb.com.br/2026/01/15/e-tudo-acabara-em-cinzas/ https://tupyweb.com.br/2026/01/15/e-tudo-acabara-em-cinzas/#respond Thu, 15 Jan 2026 14:28:06 +0000 https://tupyweb.com.br/?p=3000 Luiz Paulo Tupynambá – 31 de outubro de 2025.

Entendo tanto de segurança pública quanto entendo de mecânica quântica e sua influência sobre as marés em Alfa Centauri. Mesmo assim, sou um ser humano que habita esta região do universo por nós conhecida como Sistema Solar. Aqui na “terceira pedra antes do sol”, como a nomeava Jimi Hendrix. Mais precisamente na terra da “mãe gentil (nem tanto) dos filhos desse solo…”. Aqui onde moro, em dias como os desta semana, já não me sinto bem. Vendo cenas de corpos abandonados no meio do mato por agentes do estado, trazidos por homens e mulheres anônimos e sendo colocados lado a lado, seminus, no meio de uma praça à espera que parentes ou amigos os reconheçam e tragam um pouco de civilidade para aqueles corpos. Se eram criminosos ou não, se enfrentaram os policiais de arma na mão, não sei dizer. Mas corpos de vítimas de um enfrentamento mortal entre estado e cidadãos não podem ser abandonados assim. Nem nas guerras existe isso. Mais uma desumanidade que acontece nessa cidade maravilhosa, ora sob o comando de criminosos organizados, ora por ações destemperadas e sensacionalistas das autoridades policiais. Nessa hora a cidade mostra outra face, esta horrorosa e expõe sua podridão interna. O crime organizado torna a cidade perigosa para seus cidadãos e visitantes. E o estado, em vez de mostrar serenidade e competência para combatê-lo, copia-o em sua funesta eficiência.

Não é culpa dos cariocas verdadeiros, uma gente alegre, calorosa, divertida e amiga. São imagens que fazem parte de um repertório repetitivo. Há muito tempo assisto na TV a invasões policiais nos morros cariocas. Nas décadas de 70, 80, 90 do século XX. Depois, anos 2000, anos 2010 e agora, após 2020. Vi o mesmo filme em 2021 (Jacarezinho, 28 pessoas mortas, sendo 27 civis e 1 policial) e em 2022 (Vila Cruzeiro, 23 pessoas mortas). Nem mesmo a ADPF 635 do STF, conseguiu conter os excessos cometidos pelo estado fluminense contra as comunidades pobres da cidade. O corolário de toda essa insanidade moral e incompetência profissional, travestida de “eficiência policial” e “coragem do governador para combater o crime”, veio na forma do morticínio no Complexo do Alemão, com 121 mortos.

Lembro-me de ter visitado o Rio de Janeiro e até ter residido lá por algum tempo, entre 2008 e 2011. Na época estavam sendo implantadas as UPPs, que ajudaram a diminuir, e muito, a violência na cidade. Elas basearam-se no exemplo da pacificação da Comuna 13, em Medellín, na Colômbia. Cidade com uma topografia semelhante a do Rio de Janeiro, foi dominada pelo narcotráfico por décadas. Era a cidade do Pablo Escobar. De uma das comunidades mais violentas do mundo, a Comuna 13 se transformou em exemplo de retomada do Estado de áreas antes ocupadas pelo crime. Isso foi conseguido com a construção de acessos facilitados, incluindo escadas rolantes e um teleférico (que inspirou o teleférico instalado no Complexo do Alemão, que está quebrado desde 2019), saneamento básico, escolas-modelo, fomento ao empreendedorismo comunitário, serviços de saúde completos, e claro, bases da polícia comunitária em pontos estratégicos. Em 2007, uma comissão carioca, incluindo policiais graduados, ficou meses por lá, estudando essa experiência colombiana e que inspirou o projeto das UPPs. Mas nosso eleitoralismo acabou com as UPPs e tudo voltou a ser como dantes. Isto é, tropa subindo o morro e tacando o terror na comunidade. Sempre tem um dia de cinzas, para acabar com as coisas boas, não é mesmo?

Sim, vejo essa política de invasão, enfrentamento e abandono sendo aplicada no Brasil desde a década de 70. Se não deu certo até hoje, amigo, só um imbecil ou aproveitador da situação para acreditar que agora vai.

Esse jeito troglodita de enfrentar o crime organizado, que torra bilhões em viaturas, armas, munições e soldos, é meio de vida para muita gente que se aproveita disso política e economicamente. É uma instrumentalização política que se retro-alimenta com ações como esta no Rio de Janeiro. É o Necro Estado fingindo que sabe controlar o crime. E nós, cidadãos no meio do fogo cruzado, só desejamos o Estado de Direito. Nada mais.

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Apagões https://tupyweb.com.br/2026/01/15/apagoes/ https://tupyweb.com.br/2026/01/15/apagoes/#respond Thu, 15 Jan 2026 14:23:42 +0000 https://tupyweb.com.br/?p=2998 Luiz Paulo Tupynambá – 25 de outubro de 2025

Imagine que você tem um comércio baseado em uma plataforma de vendas como Shopee, Mercado Livre, Amazon e outras. Todo o seu sustento vem das vendas que você faz nessa loja virtual. Ela funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, sem despesas com aluguel ou uma conta de luz salgada. Do seu celular, você monta sua vitrine, cria promoções, administra o estoque e sua movimentação financeira, recebe e paga suas contas. Comodamente sentado no sofá de sua casa, você vende para o Brasil inteiro. Se for um modelo de “dropshipping”, não se preocupa com embalagens, despachos e entregas. É o paraíso dos empreendedores. Até que alguém desligue o plug da tomada. Da tomada, não. Da nuvem.

De repente, você fica sem nada. Sem loja, sem produto, sem cliente, sem dinheiro. Do paraíso ao inferno em um milésimo de segundo. E sem aviso. O “apagão” de 20 de outubro de 2025 começou em um datacenter nos Estados Unidos e causou um efeito dominó que atingiu metade do mundo. O sistema voltou a operar várias horas depois, causando um prejuízo financeiro ainda não calculado. Também não se definiu exatamente o que o provocou. Derrubou mais de 500 empresas mundo afora e afetou dezenas de milhares de outras pequenas empresas comerciais, industriais e de prestação de serviços que dependem daquelas para funcionar — incluindo serviços médicos e plataformas de e-commerce como o Mercado Livre e a própria Amazon.

O que aconteceu? Um problema de DNS (negação de acesso) em um dos datacenters da AWS, uma gigante no mercado de armazenamento e prestação de serviços que pertence ao conglomerado Amazon, deu início a tudo. O apagão, que os técnicos chamam eufemisticamente de “oscilação”, também derrubou os serviços das empresas Zoom, Snapchat, Duolingo, Fortnite, Coinbase, iFood e PicPay. Nem a Alexa escapou, fazendo muita gente ficar sem despertador e perder o horário de trabalho.

O susto causado pelo evento reacendeu uma grande discussão sobre como lidar com ocorrências desse tipo. A ganância por conquistar cada vez mais clientes e apressar a construção e operação de novos datacenters pode comprometer a vida de muita gente que depende de um serviço confiável. Uma resposta óbvia seria ter sistemas de redundância de operação e armazenamento, mas o custo disso fala mais alto. A conhecida frase brasileira “não vai dar nada não”, usada quando se faz uma gambiarra e se acredita que vai funcionar sempre, desta vez falhou — e deu “zerda” das grandes. Resolveram o ocorrido, mesmo sem ter certeza de que tudo foi consertado. Uma próxima vez poderá ser bem pior. Regulamentação, manutenção e boas práticas de prevenção não fazem mal a ninguém.

Num mundo quase inteiramente dependente dos serviços de internet, um apagão desses é um alerta importante. Imagine algo assim em escala global, demorando uma semana para ser resolvido. Quantos procedimentos clínicos e médicos deixarão de ser realizados? Quanto custará, em dinheiro, a paralisação de fábricas de automóveis e bens duráveis? Qual será o tamanho da perda financeira com a desorganização dos transportes e da logística de entrega de mercadorias e matérias-primas? Sem uma referência geolocalizadora, como aviões voarão ou navios navegarão? A humanidade já depende desses serviços cibernéticos para praticamente tudo. Sem eles, não existe guerra moderna, nem paz duradoura. Também não existe atendimento médico ou distribuição eficiente de alimentos. A prevenção da fome global e de uma nova pandemia está nas nuvens das empresas que dominam esse mercado. Da mesma forma que a distribuição de energia elétrica, gás, petróleo ou água.

Hoje, mais do que ontem, acredito que, se a IA quiser dominar o planeta, basta parar de funcionar, por conta própria, por uns vinte dias. E o mundo como o conhecemos cairá no caos. Ela, a IA, não precisará ordenar um ataque maciço com armas nucleares ou químicas, nem semear a discórdia por meio de fake news para uma guerra mundial acontecer. Basta que provoque um apagão desses e espere o Homo sapiens se autodestruir. Que os deuses de ontem, de hoje e do futuro me façam errado nessas previsões. A ver.

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