Crônicas – Site do Luiz Paulo Sarti Tupynamba https://tupyweb.com.br Um blog que fala um pouco sobre muitas coisas. Tue, 27 Jan 2026 13:28:28 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9 https://tupyweb.com.br/wp-content/uploads/2026/01/cropped-LOGO-DO-BLOG-2026-TUBARAO-ENGOLINDO-PLANETA-TERRA-248-X-248-32x32.png Crônicas – Site do Luiz Paulo Sarti Tupynamba https://tupyweb.com.br 32 32 Paradoxos políticos e incongruências lógicas https://tupyweb.com.br/2026/01/15/paradoxos-politicos-e-incongruencias-logicas/ https://tupyweb.com.br/2026/01/15/paradoxos-politicos-e-incongruencias-logicas/#respond Thu, 15 Jan 2026 14:48:19 +0000 https://tupyweb.com.br/?p=3013 Luiz Paulo Tupynambá – 6 de dezembro de 2025

Poetas, doidos e profetas da linha filosófica 51 com Brahma conhecem as lendas que serão contadas no futuro. Uma delas diz que a humanidade já tinha alcançado desenvolvimento tecnológico para fazer grandes viagens para planetas distantes. Como nossa espécie, diz o ditado mineirês raiz, tem curuquerê no fiofó e não sossega em lugar nenhum desse mundo de Deus, decidiu colonizar um planeta em outro sistema solar. Coisa, que apesar de demorada e financeiramente custosa, traria a felicidade geral e tanta riqueza que sobraria até para os arcanjos e querubins aposentados. E ainda pingaria uns caraminguás para uns pobres diabos desassistidos, apesar da oposição da bancada evangélica.

Com grande pompa, a maior nave já construída pela humanidade partiu, levando mais de cem pessoas escolhidas a dedo, em seus dispositivos criogênicos. Eles dormiriam por cem anos até chegar ao seu objetivo final. E assim aconteceu.

Nave pousada, criogenia desligada, o povo todo acordou, abriu-se a porta da nave e todos desembarcaram. Embasbacaram-se com a beleza natural do planeta, suas cascatas de água limpa, a temperatura agradável e o ar mais puro que jamais tinham respirado. Após uma pequena cerimônia para fincar a bandeira da Terra e um singelo brinde com água pura de um riacho ali perto, dedicaram-se aos afazeres programados. Mas, o sossego durou pouco.

Dezenas de pessoas surgiram voando em vôo rápido e rasante, usando trajes especiais que desconheciam. Elas cercaram os surpresos viajantes, encarando-os belicosamente através dos seus capacetes transparentes. Um deles, grande e forte, muito parecido com qualquer chinês grande e forte da Terra, gritou: “Quem são vocês? O que querem aqui? De onde vocês vêm?”.

O comandante só conseguiu compreender o que tinha acontecido após muito conversar com aquelas pessoas que já estavam no planeta. Eram de uma segunda missão, lançada cinquenta anos depois da sua e que chegou vinte anos antes dele no planeta. Centenas de crianças já tinham nascido ali e viviam felizes na nova colônia humana.

Nessa altura pedi uma pausa para o meu colega de mesa, um dos mestres nessas coisas de filosofice 51 com Brahma, mas da vertente whisky com gelo. Eu já não estava acompanhando a estória. Ele me olhou com a condescendência que os poetas olham para um redator de bulas farmacêuticas que quer contestar os poemas de Neruda. E com a paciência que só os doidos têm para explicar esse mundo inexplicável em que vivemos, me ensinou:

“Caboclinho, esse é um caso típico do Paradoxo de Comunicação, que existe na Teoria dos Jogos. Veja bem: o objetivo era chegar num planeta distante com uma missão de colonização, certo? – concordei com um gesto – a primeira missão, baseada na tecnologia disponível na sua época, foi lançada e levou cem anos para chegar no planeta. Por algum motivo, durante a viagem perdeu a comunicação com a Terra. Após certo tempo, na Terra, concluíram que a missão tinha falhado e a tripulação toda tinha morrido. Nesse ponto já tinham se passado quarenta e cinco anos. Cinco anos depois disso, já com uma tecnologia muito mais avançada, foi enviada uma segunda missão para substituir a primeira. A segunda levou trinta anos para chegar ao planeta. – fiz cara de pateta – Vou facilitar para você. A primeira missão é lançada em 2100, então chegaria no planeta em 2200. Em 2045, ela foi dada como perdida. Em 2050 a segunda missão foi lançada. Mas a humanidade já tinha então uma tecnologia cinquenta anos mais avançada do que na época da primeira, o que permitiu que a segunda missão chegasse ao destino em trinta anos. Assim, a segunda missão chegou lá em 2080, vinte anos antes da chegada da primeira. Simples assim.” – ele  voltou sua atenção para o garçom que lhe servia mais uma “cascavel”, que era como ele chamava o whisky on the rocks.

Não entendeu? Olhe ao seu redor para esse planeta que é uma amostra viva das incongruências lógicas de convivência civilizada provocadas pelos nossos paradoxos de comunicação.

Em homenagem aos meus amigos eternos, Vanderlei Gazón, o Canarinho e Paulo “Moreira” Camargo, artista plástico, companheiros de muitas divagações por futuras lendas e saberes que estão no porvir.


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E tudo acabará em cinzas https://tupyweb.com.br/2026/01/15/e-tudo-acabara-em-cinzas/ https://tupyweb.com.br/2026/01/15/e-tudo-acabara-em-cinzas/#respond Thu, 15 Jan 2026 14:28:06 +0000 https://tupyweb.com.br/?p=3000 Luiz Paulo Tupynambá – 31 de outubro de 2025.

Entendo tanto de segurança pública quanto entendo de mecânica quântica e sua influência sobre as marés em Alfa Centauri. Mesmo assim, sou um ser humano que habita esta região do universo por nós conhecida como Sistema Solar. Aqui na “terceira pedra antes do sol”, como a nomeava Jimi Hendrix. Mais precisamente na terra da “mãe gentil (nem tanto) dos filhos desse solo…”. Aqui onde moro, em dias como os desta semana, já não me sinto bem. Vendo cenas de corpos abandonados no meio do mato por agentes do estado, trazidos por homens e mulheres anônimos e sendo colocados lado a lado, seminus, no meio de uma praça à espera que parentes ou amigos os reconheçam e tragam um pouco de civilidade para aqueles corpos. Se eram criminosos ou não, se enfrentaram os policiais de arma na mão, não sei dizer. Mas corpos de vítimas de um enfrentamento mortal entre estado e cidadãos não podem ser abandonados assim. Nem nas guerras existe isso. Mais uma desumanidade que acontece nessa cidade maravilhosa, ora sob o comando de criminosos organizados, ora por ações destemperadas e sensacionalistas das autoridades policiais. Nessa hora a cidade mostra outra face, esta horrorosa e expõe sua podridão interna. O crime organizado torna a cidade perigosa para seus cidadãos e visitantes. E o estado, em vez de mostrar serenidade e competência para combatê-lo, copia-o em sua funesta eficiência.

Não é culpa dos cariocas verdadeiros, uma gente alegre, calorosa, divertida e amiga. São imagens que fazem parte de um repertório repetitivo. Há muito tempo assisto na TV a invasões policiais nos morros cariocas. Nas décadas de 70, 80, 90 do século XX. Depois, anos 2000, anos 2010 e agora, após 2020. Vi o mesmo filme em 2021 (Jacarezinho, 28 pessoas mortas, sendo 27 civis e 1 policial) e em 2022 (Vila Cruzeiro, 23 pessoas mortas). Nem mesmo a ADPF 635 do STF, conseguiu conter os excessos cometidos pelo estado fluminense contra as comunidades pobres da cidade. O corolário de toda essa insanidade moral e incompetência profissional, travestida de “eficiência policial” e “coragem do governador para combater o crime”, veio na forma do morticínio no Complexo do Alemão, com 121 mortos.

Lembro-me de ter visitado o Rio de Janeiro e até ter residido lá por algum tempo, entre 2008 e 2011. Na época estavam sendo implantadas as UPPs, que ajudaram a diminuir, e muito, a violência na cidade. Elas basearam-se no exemplo da pacificação da Comuna 13, em Medellín, na Colômbia. Cidade com uma topografia semelhante a do Rio de Janeiro, foi dominada pelo narcotráfico por décadas. Era a cidade do Pablo Escobar. De uma das comunidades mais violentas do mundo, a Comuna 13 se transformou em exemplo de retomada do Estado de áreas antes ocupadas pelo crime. Isso foi conseguido com a construção de acessos facilitados, incluindo escadas rolantes e um teleférico (que inspirou o teleférico instalado no Complexo do Alemão, que está quebrado desde 2019), saneamento básico, escolas-modelo, fomento ao empreendedorismo comunitário, serviços de saúde completos, e claro, bases da polícia comunitária em pontos estratégicos. Em 2007, uma comissão carioca, incluindo policiais graduados, ficou meses por lá, estudando essa experiência colombiana e que inspirou o projeto das UPPs. Mas nosso eleitoralismo acabou com as UPPs e tudo voltou a ser como dantes. Isto é, tropa subindo o morro e tacando o terror na comunidade. Sempre tem um dia de cinzas, para acabar com as coisas boas, não é mesmo?

Sim, vejo essa política de invasão, enfrentamento e abandono sendo aplicada no Brasil desde a década de 70. Se não deu certo até hoje, amigo, só um imbecil ou aproveitador da situação para acreditar que agora vai.

Esse jeito troglodita de enfrentar o crime organizado, que torra bilhões em viaturas, armas, munições e soldos, é meio de vida para muita gente que se aproveita disso política e economicamente. É uma instrumentalização política que se retro-alimenta com ações como esta no Rio de Janeiro. É o Necro Estado fingindo que sabe controlar o crime. E nós, cidadãos no meio do fogo cruzado, só desejamos o Estado de Direito. Nada mais.

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